Comecei a beber cedo. Tinha 14 anos. Aquela curiosidade adolescente de experimentar o que parecia ser símbolo de maturidade, liberdade, rebeldia. Era fácil, era acessível, era comum. Em meu aniversário de 18, meu corpo respondeu com um coma alcoólico. Achei que seria um ponto fora da curva. Mas não foi. Aos 19, veio outro.
Durante muito tempo, achei que o álcool fazia parte do “viver bem”. Um bom vinho com aperitivo. Uma cerveja escura bem gelada para fechar a tarde. Um bom whisky para premiar uma semana intensa. Era um ritual. Um costume. Um escape.
E, talvez, uma herança
Na minha árvore genealógica, especialmente pelo lado do meu avô, o álcool teve um papel pesado. Um papel que marca gerações. E por muito tempo, eu ignorei isso. Mas heranças não somem, ou a gente transforma, ou elas nos repetem.
Lembro dos bares do centro de São Paulo. Aquela fase em que eu morava por lá foi uma sequência de drinques e encontros. A cidade pedia isso. Era charmosa, sedutora, caótica e cheia de brindes. Eu era parte do cenário.
Mas algo mudou
Quando cheguei na Ásia, comecei a escutar um silêncio que não existia antes. Talvez o fuso. Talvez o contraste. Talvez a distância. Mas pela primeira vez em anos, eu me ouvi com clareza.
Ali, com quase 30 anos, coloquei no papel o que queria para os meus 30 aos 40. Um corpo mais consciente. Uma mente mais limpa. Um caminho mais inteiro. E, entre as metas, uma: parar de beber.

Fácil? Não. Principalmente quando você viaja o mundo, encontra gente, vive experiências novas, e a bebida está em todos os rituais sociais. Mas fui com a cara e a coragem. E fui ficando. Um dia. Um mês. Um ano.
Hoje, são +600 dias sem álcool
+600 dias de silêncio em vez de ressaca.
+600 dias de clareza em vez de culpa.
+600 dias em que provei pra mim mesmo que sou mais forte que qualquer hábito herdado.

São 15 anos bebendo com certa frequência. E agora, quase dois anos sem uma gota. Isso é um pedido de desculpas ao meu corpo. Um pedido de reconciliação com minha história. Uma escolha consciente pela vida.
Não me tornei um radical. Ainda admiro um bom vinho, sei o que é um bom whisky, lembro dos sabores. Mas hoje, sei que posso viver sem eles, e isso é liberdade.
Talvez essa seja minha maior celebração: não é sobre dizer “nunca mais”. É sobre escolher não precisar mais.
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