Filosofia oriental & A Carta que Nunca Chegou

Queridos amigos,

Sempre me perguntam por que sou tão fascinado pela Ásia. Por que viajo tanto por aqui? Bom, por que estudo suas filosofias orientais, por que sinto que há algo profundamente diferente nessa parte do mundo que ressoa comigo de uma forma que o Ocidente, minha própria casa, muita das vezes não consegue.

A resposta não está apenas nos templos bonitos, na comida deliciosa ou nas paisagens de tirar o fôlego. Está em algo muito mais profundo: uma maneira completamente diferente de entender quem somos como seres humanos.

– Ginza, Tokyo 2024

A história que vocês lerão a seguir é fictícia, eu a criei para ilustrar um confronto filosófico real que aconteceu ao longo dos séculos. Mas a tensão que ela descreve é absolutamente verdadeira e continua moldando nossas vidas hoje, mesmo que não percebamos. Espero que gostem da leitura 🙂

Kyoto, outono de 1650

O monge zen Takuan Soho observava as folhas de bordo caírem no jardim do templo quando recebeu a visita inusitada de um jesuíta português, Padre Miguel Rodrigues. O padre trazia consigo um manuscrito recém traduzido: “Discurso do Método”, de René Descartes.

“Mestre Takuan,” disse o padre com respeito, “este filósofo francês escreveu algo que revoluciona o pensamento europeu: Cogito, ergo sum – penso, logo existo.”

O velho monge folheou as páginas traduzidas, seus olhos percorrendo aquelas ideias estrangeiras. Ficou em silêncio por longo tempo.

Finalmente, pediu papel e pincel.

A Primeira carta

“Ao estimado senhor Descartes, através das mãos do Padre Rodrigues,

Recebi com interesse vossa proposição de que o pensamento prova a existência. Mas pergunto-vos: quem é este “eu” que pensa? No momento em que dizeis “eu penso”, já criastes uma separação entre o pensador e o mundo.

Aqui no Oriente, ensinamos que a gota de orvalho não existe separada do oceano. Vossa filosofia me preocupa, pois se cada homem se torna o centro de sua própria realidade, que acontece com o tecido que nos une? O filho esquecerá o pai, o governante esquecerá o povo, cada um aprisionado em sua própria mente pensante.

Um homem sozinho não é humano – é apenas um fantasma contemplando a si mesmo.

Com respeito e preocupação, Takuan Soho”

Paris, primavera de 1651

Descartes, já fragilizado pela doença que logo o levaria, recebeu a carta através de canais jesuítas. Intrigado, respondeu.

A Resposta

“Estimado Mestre Takuan,

Vossa carta me chegou como um koan – um quebra-cabeça que desafia meu método. Mas devo esclarecer: quando digo “penso, logo existo”, busco apenas uma fundação sólida para o conhecimento, não a destruição da sociedade.

O “eu” que pensa é o ponto de certeza do qual podemos construir tudo mais – inclusive a ética e as obrigações sociais.

Respeitosamente, René Descartes”

A Última Carta

Takuan nunca recebeu essa resposta.

Anos depois, o discípulo de Takuan, Bankei Yotaku, encontrou a carta original de seu mestre e decidiu completar a correspondência. Escreveu para a Europa, endereçando aos sucessores de Descartes:

“Mestres do Ocidente,

Meu professor, que já partiu, temia que vossas ideias criassem um mundo de espelhos – cada pessoa vendo apenas seu próprio reflexo pensante, incapaz de ver o outro verdadeiramente.

Trezentos anos no futuro, virão os que testemunharão se sua preocupação era fundada. Observarão se vosso “eu penso” criou indivíduos esclarecidos ou egos solitários.

A pergunta permanece: pode um pensamento isolado conhecer o amor? Pode uma mente separada compreender a compaixão? Pode o “eu” sozinho construir uma aldeia?

Nós do Oriente dizemos: ‘Eu existo porque nós existimos.’

Que vossos descendentes escolham sabiamente.

Bankei Yotaku, 1693″

Epílogo

Essa correspondência imaginária nunca aconteceu exatamente assim, mas a tensão filosófica era real. Enquanto o Ocidente construía o Iluminismo sobre o indivíduo racional, o Oriente mantinha tradições onde a identidade era inseparável da sociedade.

Séculos depois, sociólogos confirmariam a preocupação de Takuan: sociedades moldadas pelo individualismo cartesiano enfrentariam epidemias de solidão, fragmentação social e a pergunta eterna – “quem sou eu?” – sem nunca perceber que a resposta sempre foi: “você é quem você é para os outros.”

E aí, o que acharam?

Antes que alguém pergunte “qual lado está certo?”, deixa eu ser direto: essa não é a questão.

Os monges tibetanos têm um ensinamento que sempre me impactou: comparar é sofrer. Quando você coloca duas coisas lado a lado para julgar qual é superior, você já perdeu o ponto. Não se trata de Oriente versus Ocidente, de quem tem a filosofia “melhor”.

O próprio Buda ensinou que o apego a visões e opiniões é uma das principais fontes de sofrimento humano. Quando nos agarramos à ideia de que “nosso jeito é o certo”, criamos divisão onde poderia haver aprendizado.

Pensem no yin-yang, não é uma batalha entre luz e escuridão. É a dança entre eles. A sombra não é inimiga da luz, ela existe por causa da luz. Uma define a outra. O silêncio só tem significado porque existe o som. O descanso só é doce e maravilhosao porque conhecemos o cansaço.

Da mesma forma, talvez o individualismo ocidental e o coletivismo oriental não sejam opostos em guerra, mas duas metades de uma verdade maior sobre o que significa ser humano. Precisamos do “eu” E do “nós”. Da autonomia E da conexão. Da mente que pensa sozinha E do coração que bate com os outros.

Alguns pensamentos que tive escrevendo esse texto foram:

1. Não existe identidade no vácuo

Mesmo Descartes, quando disse “penso, logo existo”, estava escrevendo para outras pessoas, em uma linguagem que aprendeu de outros, usando conceitos herdados de séculos de filósofos. Até o pensador mais solitário está mergulhado em relações.

2. A liberdade total pode ser uma prisão

O Ocidente moderno nos deu liberdade sem precedentes para “ser quem quisermos”. Mas vocês já notaram como isso pode ser paralisante? Quantas escolhas, quanta pressão para “se encontrar”. Às vezes, ter um papel claro na comunidade (como no Oriente tradicional) traz mais paz do que infinitas possibilidades.

3. O coletivismo também tem sombras

Antes de romantizarmos demais o Oriente: a pressão social asiática pode ser esmagadora. Suicídio por fracasso acadêmico no Japão. Filhos que vivem vidas inteiras para satisfazer pais. Indivíduos que sufocam suas verdades para manter a harmonia do grupo. A conexão forçada é tão doentia quanto o isolamento escolhido.

4. Talvez a síntese seja o caminho

E se pudéssemos pegar o melhor dos dois mundos? A consciência individual do Ocidente + a sabedoria relacional do Oriente? Ser capaz de pensar criticamente e de pertencer profundamente? Não é escolher um ou outro – é integrar ambos.

5. Sua cultura te programa sem você perceber

Se você nasceu no Ocidente e está lendo isso, provavelmente sua primeira reação a problemas é: “O que EU penso sobre isso? O que EU quero fazer?” Um asiático tradicional perguntaria primeiro: “O que minha família espera? Como isso afeta os outros?”. Nenhuma pergunta está errada… mas perceber que existem outras perguntas já é revolucionário.

Então, qual o ponto dessa história toda?

Não estou dizendo que você precisa se mudar para a Ásia ou virar budista. Estou dizendo que existe um mundo inteiro de sabedoria que nossa cultura ocidental simplesmente não nos ensina. E conhecer esse outro jeito de pensar não nos torna menos ocidentais, isto é, nos torna mais completos. Sacou viajante?!

filosofia oriental 2
Takayama, Japan 2025

PS: não leve esses pensamentos para os negócios, você tem um grande chance de falhar no capitalismo (risos). Até mais, Flwwww

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Be a nomad not a tourist. By Augusto Spineli

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